Sociedades polarizadas

22/10/15 | Lutas no Brasil

Parte da polarização se deve à diferença de salários que vem se acentuando durante a crise. Soluções? Redistribuição de riqueza via transferências sociais.

Vivemos em sociedades cada vez mais polarizadas, onde os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. E os podres de ricos se apropriam de mais riqueza todos os dias. A pergunta é: por quanto tempo?

O Credit Suisse acaba de publicar seu respeitado informe sobre a riqueza global. Segundo seus cálculos, o 1% mais rico da população mundial possui 50% do patrimônio do planeta. Portanto, a divisão entre o 1% e o 99% mais pobre não era mera consigna, e sim a nossa realidade. E não é só isso, 0,7% da população possui 45,2% da riqueza do mundo, enquanto cerca de 3,4 bilhões sobrevive com somente 3% da riqueza que sobra. A tendência é que o patrimônio de 80% da população se reduza, e quanto mais pobre, mais se reduziria, enquanto os 10% superior veriam crescer seu patrimônio através da mesma proporcionalidade – quanto mais rico mais aumentará.

10% da população do planeta possui 88% da riqueza, enquanto os 50% mais pobres têm somente 1%. A concentração máxima já não se produz entre o 1% mais rico, mas sim no 0,1% mais rico. A crise vem acentuando a desigualdade e a polarização em todos os países, e particularmente na Europa e nos Estados Unidos, onde ela se iniciou. O mundo não experimentava um nível tão grande de desigualdade há mais de um século.

Outra fonte: a lista de multimilionários da Forbes, em 1987 assegurava que 140 pessoas controlavam 0,4% do patrimônio mundial. Em 2013, 1,4 mil que possuíam 1,5% da riqueza. Projeções do economista francês Thomas Piketty mostram que 2 mil indivíduos, segundo extrapolações da tendência atual, se apropriariam de 7,2% do patrimônio até o ano de 2050, e de 59% até 2100. O economista Joseph Stiglitz afirma que 85 pessoas têm um patrimônio equivalente ao de 50% da população mundial.

Muito se fala do crescimento da China, da Índia e da América Latina nos últimos tempos como sendo um corretor da distribuição da riqueza, com a aparição de uma nova classe média. O informe define a classe média, em termos bem amplos, como aquela que possui entre 50 mil e 500 mil dólares de patrimônio. Pois bem, essa classe media inclui tão somente 664 milhões de adultos, ou seja, 14% do total da população mundial, enquanto os que têm riqueza superior a esse limite são 96 milhões de adultos, 2% da população.

A partir dessa medida, a China teria somente 11% da sua população entre a considerada classe média, assim como a América Latina, enquanto, nos Estados Unidos, essa proporção é de 39%, e na Europa de 33%. Já na Índia, somente 3% poderia estar nessa categoria, proporção similar à observada na África. Ou seja, embora haja 109 milhões de chineses na classe média, mais que em qualquer outro país, eles são uma clara minoria em seu território.

Observando o número de milionários por país, sobre o total mundial, percebe-se que 46% vive nos Estados Unidos, 4%, na China, 5% na França, 5% na Alemanha, 7%, no Reino Unido, 6% no Japão, 2% na Suíça e 1% na Espanha. Cerca de 49% dos multimilionários vivem nos Estados Unidos, 30% na Europa, 4% na China e somente 2% na Índia, África e na América Latina.

Na verdade, as comparações por países não refletem a realidade. Há um cálculo curioso, de outras fontes. A partir da ideia de que a Europa e os Estados Unidos estão em dívida com os países emergentes, mas não é tão assim: a dívida líquida dos países ricos é de 4% do produto interior bruto. Mas a dívida líquida dos demais países é de 3%.

Ou seja, que 7% do planeta está em dívida. Com quem? Com Marte? Cerca de 10% do PIB mundial não está nas contabilidades nacionais e se estima que foi depositados em paraísos fiscais. Ou seja, não haveria uma transferência entre países em termos reais, e sim uma transferência aos fundos financeiros onde os ricos investem para driblar a Fazenda.

Na Espanha, se manifestam tendências similares. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) nos considera o segundo país mais desigual entre os seus membros (com um coeficiente de Gini de 0,52, um dos mais altos do mundo). Cerca de 10% da população espanhola possui 50% do patrimônio, enquanto 40% fica somente com 3%.

Parte da polarização se deve à diferença de salários que vem se acentuando durante a crise. O salário médio dos diretores das empresas Ibex é de 612 mil euros, enquanto que o dos trabalhadores é de 43 mil euros. Culpa da crise? Não: na leve recuperação observada em 2014, os salários dos executivos aumentaram em 17,5% (independentemente dos benefícios da empresa), enquanto os dos trabalhadores diminuiu em 0,64%. E para piorar, o nível de pobreza no país se situa em 29,2%, uma de cada três crianças está nesse patamar. Em quase dois milhões de lares espanhóis não há nenhuma pessoa empregada, e em mais de 770 mil não há renda.

Soluções? Redistribuição de riqueza via impostos e transferências sociais. Na Espanha, quando se corrige assim a riqueza, o coeficiente de Gini se reduz a 0,34. Não há outra solução, apenas os impostos progressivos às grandes riquezas e às grandes empresas, combinados com o controle das fraudes fiscais, podem reverter esse quadro – e, de quebra, financiar um gasto público ativo, criador de bem-estar social, emprego e infraestruturas produtivas.

A questão agora é saber quem manda e para quem. Em cada atitude, é possível perceber como quem manda no mundo, em geral, são os políticos a serviço dos ricos que querem ser ainda mais ricos.

Demagogia? Só se for uma inédita demagogia dos dados estatístico.

Tradução: Victor Farinelli

Fonte: Carta Maior

Foto: reprodução

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