Ontem ensinamos aos nossos filhos uma grande lição, por Roberto Tardelli

10/03/15 | Lutas no Brasil

Do Justificando

Por Roberto Tardelli
//Colunista Just
Suponha que o filho(a) traga da escola um recado da professora, desgostosa, triste e consternada porque foi chamada de puta, biscate, arrombada, filha da puta em razão de uma nota ou de uma opinião ou de qualquer coisa que envolvesse a ambas, a criança e a professora. Os pais se estarreceriam e se perguntariam como aquele petiz tão fofucho(a), tão gracioso(a) e com um sorriso tão lindo pudesse ter na sua boca palavras tão feias. Suponha-se que, indagada dos motivos das ofensas, ele(a) se defendesse, dizendo que a escola está suja, as paredes pichadas, o banheiro está um horror, a sala de aula não vê uma vassoura faz tempo, a professora tem mau hálito e, ainda por cima, um pouco suja, porque as coisas não iam muito bem para os lados da Secretaria.

Estou certo que nenhum pai minimamente sensato, nenhuma mãe minimamente sensata, minimamente, repita-se, diria para o filho(a) que, bem, diante daqueles fatos, ele(a) estaria certa em ofender pessoal e gravemente a professora. Ninguém diria a essa criança que o xingamento faz parte da rotina escolar, que é parte do processo pedagógico e que a tia se cuidasse com o que dissesse. Ninguém diria que seria salutar para o desenvolvimento escolar daquela criança que ela xingasse a professora, tudo sendo apenas um reflexo do estado calamitoso da educação. Ninguém diria que a criança estaria lutando por seus direitos de aluno(a).

Todos explicaríamos ao nosso(a) indignado infante que existe uma diferença que deve ser respeitada entre o público e o privado e que a crítica pública da esfera privada é algo sórdido, que não deveria ocorrer. O pai, nas fabulações futebolísticas, diria ao filho(a) que tudo bem chamar o goleiro de frangueiro, mas ninguém teria o direito de chamá-lo de canalha, arrombado (que palavra horrível!!), porque o goleiro pode ser frangueiro, mas na vida pessoal ninguém teria o direito de ofendê-lo gratuitamente, muito menos se poderia fazê-lo quando ele não pudesse se defender, até pelo anonimato da multidão em fúria.

Os mais pressurosos e entristecidos procurariam um terapeuta infantil que os ajudasse a entender aquele fenômeno de ódio pessoal pela professora, que ele(a) sequer sabe como vive em sua casa, com seus filhos e parentes, o que faz nas horas de lazer, se gosta de palavras cruzadas ou se joga videogame com o netinho, se ouve música ou se cozinha um macarrão para a mãe que vem visitá-la. O terapeuta muito provavelmente sugeriria que alguém próximo demais à criança – que a amasse sobre todas as coisas, que seria capaz de doar sua vida pela dela – estivesse desenvolvendo atitudes semelhantes em relação a outras pessoas. É provável, diria o terapeuta, que houvesse uma imitação acrítica, sem maiores preocupações, desde que os adultos refletissem e dessem, eles mais do ninguém, à criança o comportamento que dela cobrassem.

Se fosse mais direto, diria aos pais que a criança apenas fez o que eles fazem, com o mesmo ódio que transmitem; diria que muito ao contrário de ensinar-lhe cidadania, só lhe transmitem ressentimento e o ressentimento deles é estranho porque afeta, por exemplo, a cozinheira da casa. Sente que toca a empregada, aquela uma que a vê chorar de medo muito mais do que os pais e a acolhe e a abraça enternecidamente; ficará difícil para ela entender que essa gente não quer trabalhar. Restará a ela a imitação comportamental. Xingar a professora da escola particular cuja prestação está nas alturas, que lá trabalha porque porque eu estou pagando aquilo tudo, acaba se tornando quase um exercício regular de um direito que lhe foi outorgado pelos adultos, que se referem a outras pessoas como puta, vadia, biscate, arrombada, filha da puta… Se cada qual vive em seu quadrado, o quadrado infantil também tem seus vilões, gratuitos ou não.

Imagine que seu filho(a) recuse ao amiguinho uma fatia de seu bolo de aniversário, sob o argumento de que o bolo é pequeno e que reparti-lo seria impossível, porque haveria parentes, preferenciais, também famintos e que chegaram antes na festa. E que complementasse dizendo ao amiguinho que ele de fato ele não teria mesmo direito à repartição do bolo, já não trabalhara na cozinha, não ajudara a bater a massa, não comprara ingredientes, não dera um centavo por aquele bolo, que custou uma grana dos pais. Ninguém bateria palmas, dizendo que teria em casa um neoliberal talentoso e nato e ensinariam uma lição de solidariedade e fraternidade, dizendo ao nosso guri(a) que ele seu amiguinho são iguais e estão no mesmo barco. Antes de dormir, os pais se perguntariam a quem da família teria puxado, acusando-se mutuamente.

Nós, adultos, aos domingos, ou sábados, levamos nossos rebentos às nossas igrejas, para decorar nossos credos e – no caso de nós, cristãos, majoritariamente católicos – propor ao Pai uma troca, uma barganha: Ele nos perdoa pelas nossas ofensas e nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Perfeito, um acordo excelente em que todos saem ganhando. Na saída, nos vêem recusar a moeda ao morador de rua/guardador de carro. Rapidinho, saímos do zero. Na cadeirinha, seguro e confortável, vê o vidro subir quando o menino negro se aproxima e sente o carro sair em velocidade. Eles te pegam de surpresa!

No seu condomínio, não existem crianças negras. No seu condomínio, os seguranças não deixam que ninguém de fora entre. Os negros estão de fora. Negros, não, pretos. Viu o pai chamar um demacaco, porque perdeu um gol feito. Seu pai não mente. Nunca mentiu. Jamais mentirá. Macaco!

Lendo a cartinha da professora, mortos de vergonha pela atitude do filho(a), os pais pensam e – claro – culpam a internet, os jogos virtuais, a televisão e esse governo daquela filha da puta, biscate, que deixou o país à beira do caos.

Arrombada!

Uma surra na criança para ela aprender a respeitar os mais velhos. Vai dormir sem jantar. Uma semana sem seu tablet, trazido de Miami, onde as coisas funcionam.

Onde reina a paz.

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.

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