A mobilidade social avançou nos dois primeiros anos do Governo Dilma. Entretanto, os dados da PNAD de 2013 revelam um cenário totalmente distinto.
Em artigo recente, utilizando os dados de 2012 da PNAD – pesquisa nacional por amostra de domicílios, do IBGE, constatamos, com certa surpresa, que apesar dos baixos índices de crescimento econômico a mobilidade social havia avançado nos dois primeiros anos do Governo Dilma.
Entretanto, os dados da PNAD de 2013 revelam um cenário totalmente distinto e preocupante. Como se observa na Tabela 1, de 2012 para 2013 a piora é bastante significativa e interrompe um ciclo de melhorias que ocorria desde 2004.
De fato, chama a atenção, por exemplo, a retração de 2,3 milhões de pessoas na Média Classe Média e o aumento de 1,5 milhão na camada de Miseráveis.
Esta forma usual de apresentar os dados traz consigo, entretanto, a dificuldade analítica provocada pelo aumento da população entre os dois anos. Apenas para ilustrar, no aumento dos miseráveis é impossível separar a parcela que deriva do mero crescimento vegetativo das famílias desta camada e a que corresponde à queda daquelas que se encontravam em camadas superiores.
Para contornar esta dificuldade simulamos uma “atualização” para 2013 da estrutura social de 2012, aplicando a distribuição percentual por camadas sociais de 2012 sobre o total da população de 2013.
Esta simulação apresenta a situação que seria encontrada em 2013 caso não ocorresse nenhuma alteração nas participações das diversas camadas, ou seja, se não existisse mobilidade social ascendente ou descendente.
Desta forma, a variação que se observa agora na Tabela 2 pode ser atribuída exclusivamente às mudanças nas posições sociais, “isolando” o crescimento populacional.
Neste exercício os números ganham outro significado revelando que, em apenas um ano, uma séria mobilidade descendente atinge 780 mil pessoas na Alta Classe Média e 2,6 milhões na Média.
Como a Baixa Classe Média, que potencialmente recebeu esta queda em cadeia de 3,4 milhões de pessoas, cresceu em 2,4 milhões, sugere-se que um milhão desceu desta camada para posições inferiores.
Com a queda de 330 mil na Massa Trabalhadora (pobres), a camada de Miseráveis cresce em 1,3 milhão de pessoas rebaixadas para a pior situação social, revelando a profundidade deste processo.
Diante da estagnação na economia, é possível que o mau desempenho tenha se mantido em 2014. Neste caso, parece-nos bastante plausível admitir que o cenário de retrocesso social tenha contribuído com as dificuldades que a candidata Dilma enfrentou nas últimas eleições.
Ou seja, além dos sérios impactos advindos das revelações de mau uso dos recursos e instituições públicas, incessantemente marteladas pelos meios de comunicação, e de outras razões igualmente relevantes, existiria uma robusta base material para o descontentamento de amplos segmentos da sociedade.
Se recordarmos os resultados eleitorais no Estado de São Paulo, por exemplo, esta linha de raciocínio revela grande consistência.
Os dados da Tabela 3 são muito elucidativos, indicando uma retração ainda mais severa nas duas camadas melhor situadas dos paulistas com “padrão de vida” de classe média, em geral com considerável influência na formação da chamada opinião pública, mas que aqui são bem mais numerosas do que a média nacional.
O recuo igualmente mais agudo na Baixa Classe Média (levando em conta as pessoas que desceram das camadas superiores), sem dúvida reforça o panorama desfavorável ao Governo Federal.
De fato, um milhão e seiscentas mil pessoas são atingidas na Alta e Média Classe Média – ou seja, um contingente da ordem de 10,5% destas duas camadas em 2012 -, e outras quinhentas mil são rebaixadas da Baixa Classe Média para as camadas dos Miseráveis e Massa Trabalhadora.
Estes movimentos negativos podem ajudar a entender a radicalização e intolerância entre os adeptos das candidaturas, que atingiram níveis há muito tempo não observados em nossa sociedade.
Da mesma forma, são inteiramente procedentes as preocupações com os desdobramentos dos ajustes de corte recessivo anunciados pelo Governo Federal para 2015. Se a paralisia prolongada provocou um retrocesso desta magnitude, um recuo maior na economia pode causar um estrago ainda mais sério na estrutura social, em grande medida afetando aqueles que foram beneficiados recentemente.
Apenas para termos uma ideia aproximada do significado social desta trágica possibilidade, simulamos na Tabela 4 um retorno para o quadro vigente em 2010.
Como se observa, os números do exercício são de fato impressionantes: um milhão e meio de pessoas seriam rebaixadas da Alta Classe Média, outro milhão e seiscentos mil da Média- somando 3,1 milhões nestas duas camadas -, e a Baixa Classe Média sofreria um encolhimento de 7,8 milhões. Por sua vez, a Massa Trabalhadora (pobres) incharia em 8,8 milhões e os Miseráveis em dois milhões.
Cabe enfatizar que estas perdas seriam acrescentadas àquelas ocorridas em 2013!
E nada indica que estes enormes contingentes irão aceitar passivamente a piora em suas condições de vida. Como sabemos estas já são bastante precárias ao se levar em conta a deterioração predominante na saúde, educação, transporte e locomoção, segurança pública, moradia, saneamento etc.
(*) Obs.: a versão completa pode ser acessada em Paralisia econômica, retrocesso social e eleições, na Plataforma Política Social.
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