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O Dia da/o Pedagoga/o: lembranças do que devemos ser em tempos furiosos, por Alexandre Filordi

20/05/2020

Em um mundo entregue à superficialidade nas relações humanas, às normas heteropatriarcais, aos enclaves da injustiça social que transformam a miséria humana e a dor do próximo em espetáculo, ser pedagoga/o é ousar desejar.

por Alexandre Filordi

Em 20 de maio celebra-se o Dia da/o Pedagoga/o. Inevitável lembra-me de Hannah Arendt acerca de um dos objetivos da educação: proteger as crianças das agressões do mundo e prepará-las para o mundo, por sua vez, em constante transformação.

A cena de uma criança fantasiada de policial e conduzida até ao Messias para bater continência, sinal de iniciação à submissão precoce na ordem estabelecida e cruel, porém, forçada por um adulto, mostra que as crianças não estão sendo protegidas dos destemperos e das fúrias mundanas de nossa época. A execução de João Pedro, fuzilado no Rio de Janeiro, como tantas crianças e adolescentes, pela polícia genocida, também dá testemunho desse fracasso. Tampouco estão as novas gerações sendo preparadas para transformar o mundo, desbarbarizando-o, e emancipando-se de suas tiranias.

Se a educação é atividade elementar e necessária na complexa articulação entre proteger aos que estão a adentrar no mundo e prepará-los para o estado de contínuo vir a ser do mundo, então, é preciso lembrar que as/os pedagogas/os são aí imprescindíveis.

Ser pedagoga/o é um estado de constante mutação e sempre dependente de outros sujeitos. A/O pedagoga/o é, por função e consequentemente, alguém inacabada/o, pois se realiza no ato infindável do educar.

Assim, o que se demanda a esses ourives da vida é um convite renovado para novas descobertas, novos saberes e sabores a serem degustados fora do que, pretensamente, pensa-se já saber.

A/O pedagoga/o é cúmplice com as reinvenções da vida – dispostas no longo intervalo entre o que não sabemos e o que desejamos saber; entre o que já fazemos e o que podemos fazer. Por isso mesmo, ser pedagoga/o é possuir um corpo sensível, já que a experiência educativa não prescinde da sensibilidade com as singularidades, as diferenças e as necessidades de seus sujeitos. Do contrário, corre-se o risco de se deixar cristalizar pela teoria ou prática, pela crença, pela função burocrática, pelo fascínio do poder autoritário; mas também pela monotonia e pela convicção do conhecimento autossuficiente e, então, já não se é mais pedagoga/o.

O psicanalista Félix Guattari dizia que “desejo são todas as formas de vontade de viver, de vontade de criar, de vontade de amar, de vontade de inventar uma outra sociedade, outra percepção do mundo, outros sistemas de valores”. Em um mundo entregue à superficialidade nas relações humanas, às normas heteropatriarcais, aos enclaves da injustiça social que transformam a miséria humana e a dor do próximo em espetáculo, ser pedagoga/o é ousar desejar.

Com efeito, toda experiência da/o pedagoga/o com a educação assinala para formas de vontade de viver cujas expressões, palavras e cujos gestos ensinam aos que estão entrando no mundo que não estamos condenados a ser os mesmos; e que pensar diferentemente do que pensamos é condição primeira de todo ato de educar.

Desse modo, a/o pedagoga/o não reza cartilha, pois o desejo recusa todo dogmatismo e toda repetição, conduzindo-a/o à criação de novos mundos possíveis. E a criação é uma insubmissão voluntária, ela não presta continência a nenhum servilismo. Não é à toa que os fascistas, os ditadores e os autoritários de plantão perseguem tudo o que emana da criação desejante: a arte, a expressão corporal não normativa, os saberes dos povos autóctones e originários, as minorias, o conhecimento não sistemático etc.

De tal modo, ser pedagoga/o é justamente criar pontes de desejo para que as pessoas circulem no mundo fazendo novas conexões sociais, sem nenhum tipo de neocolonialismo. Conexões contrárias à economia dos afetos negociáveis, aos poderes que legitimam a opressão de qualquer ordem, às ordenações históricas de classe, de raça, de gênero e de credo.

A/O pedagoga/o é um/a educador infame, sendo senão ato vivo de singularidade existencial. Ela/e não busca a fama. É estranho poema, nem sempre notada/o, dignificada/o, invocada/o como parcela viva da história, mas que, contudo, faz girar as experiências mais reais, micropolitizadas, nem sempre vistas e valorizadas, mas que estão lá, aqui, além de aqui, mas presentes na concretude humana.

Em um país como o Brasil, a/o pedagoga/o infame está em todos os recantos das experiências educativas – no prédio, na roça, na tapera, sob a árvore, na tribo, no quilombola, nos acampamentos do MST, nos cem lugares possíveis. A/O pedagoga/o é um/a ator/a e autor/a na dramaturgia da vida real.

Se ser é insistir, como disse Fernando Pessoa, então é aí que devemos estar nesses tempos de fúria: na insistência com a renovação do desejo de educar no mundo, porém, anunciando que outro mundo também é possível.

Alexandre Filordi (EFLCH/UNIFESP)

FONTE: GGN
FOTO: REPRODUÇÃO


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