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Estudantes mulheres, áreas do conhecimento e os cortes no ensino superior: interseccionalidades de uma realidade perversa

23/05/2019

Interseccionalidades de uma realidade perversa: caso ocorra corte de investimentos em cursos de ciências sociais e humanas, os resultados seriam extremamente prejudiciais para o corpo discente feminino, segundo os dados da pesquisa ANDIFES

No último dia 16 de maio, apresentou-se ao público a “V Pesquisa de perfil socioeconômico dos (as) estudantes de graduação das Instituições Federais de Ensino Superior”, realizada a pedido da Associação Nacional de Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES).

Trata-se, pois, do novo capítulo da série que, iniciada em 1996, é de suma importância para a percepção e acompanhamento do perfil médio socioeconômico e cultural do corpo discente das Instituições Federais de Ensino Superior. Nesta edição, a Pesquisa abrangeu a significativa amostra de 420 mil estudantes, provenientes de todas as 63 universidades federais brasileiras.

Os dados, em linhas gerais, demonstram que a maioria da população universitária é preta e parda (51,2%), oriunda dos extratos sociais de baixa renda (70,2% com renda familiar de até 1,5 salário per capta), proveniente de escolas públicas de Ensino Médio (64,7%) e “desbravadora”, tendo em vista que 66,2% dos pais e 62,7% das mães dos estudantes da amostra estudaram até o ensino médio. Tais índices escalaram significativamente a partir de 2003, ano em que as políticas afirmativas (cotas étnico-sócio-raciais) passaram a ser implementadas nos processos seletivos para ingresso nas IFES.

De maneira mais específica, outro índice também chama a atenção: o protagonismo e o crescimento da participação discente do sexo feminino. As mulheres representam 54,6% da população-alvo da pesquisa, superando a população masculina em todas as regiões do país. O índice representa um aumento 3,2% em 2018, relativamente a 1996.

Sobre o tema, é interessante notar a correlação entre o sexo das graduandas e a área de conhecimentos por eles cursada. Estudantes do sexo masculino aparecem na proporção de 2 para 1 nas Ciências Exatas e da Terra e Engenharias, enquanto o inverso se verifica nas Ciências Humanas e Linguística.

Tal realidade leva a uma [ainda] maior problematização da polêmica sinalização feita por Bolsonaro no final do mês de abril, em seu perfil do Twitter, dando conta de que seu governo irá priorizar investimentos “em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como Veterinária e Engenharia”.

Caso ocorra corte de investimentos em cursos de ciências sociais e humanas, os resultados seriam extremamente prejudiciais para o corpo discente feminino, segundo os dados da pesquisa ANDIFES, seria o mais afetado pela medida.

Entre outros efeitos perversos, tal cenário impactaria negativamente um dos avanços mais significativos conquistados no bojo da expansão do ensino superior federal brasileiro: a valorização e empoderamento das estudantes no contexto da mobilização do ensino superior como forma de reduzir as desigualdades sociais.

Pesquisas como a divulgada pela ANDIFES são, portanto, de suma importância para a sociedade brasileira, pois esclarecem e quantificam a realidade nas IFES, bem como dão medida de sua importância no combate às injustiças sociais. Informações como estas atestam que a grande beneficiária do ensino superior forte e inclusivo é, sem dúvidas, a sociedade brasileira.

Pedro Henrique de Moraes Cicero é professor da Universidade Federal de Uberlândia

FONTE: Carta Maior
FOTO: EBC/Arquivo


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